A mala nada na lama – crônica semanal do Expresso Ilustrado
A mala nada na lama…
Difícil é ficar indiferente ao mundo político. São tantas as trocas, as alianças — à revelia da questão ideológica — que ficamos perplexos… Tá certo que todos os governos são de coalizão, mas o que se destaca é que, no arco político, cada vez mais tudo é salada.
Não que as ideologias não existam mais — assim como Eco, acredito que a distinção esquerda/direita sempre será clássica, expressão de projetos sociais. Mas o que vemos, na verdade, é uma prática que pouco difere: um grupo às vezes com um projeto progressista, outro com perfil conservador, e vice-versa.
E o pragmatismo para atingir certos objetivos revela-se cada vez mais, a corrupção ocupando um espaço demasiado na vida nacional. E se a corrupção é inerente ao homem, a punição da mesma nem sempre acontece exemplarmente, servindo isso como estímulo, além da própria locupletação em si.
Há e sempre haverá enganadores e enganados — enquanto publicações e políticos ditos idôneos deixam cair o véu de sua castidade, a sociedade clama por transparência na questão pública. Além do Ficha limpa, que a Lei do acesso à informação “pegue”. É um bom começo do fim. Que não se descubram novas formas de maquiar coisas velhas. E nesse caso, o papel fiscalizador do cidadão é fundamental…
Para que o palíndromo do título não continue a ser verdade, em tempos de mensalões e cachoeiras, temos todos que, ora, veja!, abrir os olhos cada vez mais.
O sono dos justos – crônica semanal do Expresso Ilustrado
Retomo hoje a publicação semanal das minhas crônicas, que será intercalada pelas antigas…
Nesta, refiro-me ao alívio do término da escritura da minha tese, que tem defesa marcada para o dia 28/05, às 14h. Infelizmente, a defesa será in memoriam, mas, se o Millôr se foi, sua obra permanecerá, sempre.
Breno Camargo Serafini
Título: “Millôres Dias Virão? (a crônica de Millôr Fernandes)”
Área: Estudos de Literatura
Especialidade: Literatura Brasileira
Orientadora: Profa. Dra. Maria da Glória Bordini (UFRGS)
Banca: Prof. Dr. Antonio Marcos Vieira Sanseverino (UFRGS)
Profa. Dra. Luciana Paiva Coronel (FURG)
Prof. Dr. Orlando Fonseca (UFSM)
Data: 28/05/2012
Horário: 14 horas
Local: Auditório do Instituto de Letras da UFRGS
O sono dos justos
Na semana retrasada, terminei uma tarefa hercúlea. Não foram os 12 trabalhos, mas é como se o fossem. Quatro anos de pesquisa, coleta, organização e leitura de um material a ser investigado sob o prisma de alguns suportes teóricos. Ufa! Passou, ou quase. Falta ainda a defesa…
E o que fica disso tudo? No início, um vazio… e um alívio, é claro! Depois, a certeza de que a pesquisa continua… Se não daquele tema, outros vêm e vão na mente. Como diria o Walter Franco. “tudo é uma questão e manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”. O fundamental é manter o espírito crítico e ficar aberto às novidades…
Nesse sentido, mal termina uma coisa, começam outras, que a vida não para. Além de recuperar as leituras atrasadas, os afetos deixados de lado pelo compromisso assumido, resta seguir a estrada. Dessa vez, com o sentimento do dever enfim cumprido. Embora outros desafios venham à mente, resta dormir o sono dos justos, pelo menos por enquanto. O que não é pouca coisa. Mas a pedra não pode parar, se não cria limo. Sinto-me, então, “like a rolling stone”. Em vez do “let it be” dos Beatles, prefiro o “let it bleed” dos Stones.
Que a vida sangre: que seria dela se tudo fosse perfeito, planejado, organizado? Um pouco de caos é sempre necessário para desacomodar as certezas… E o que fazemos nesta vida é um rascunho sem direito a segunda versão. Então: “hasta la vida, baby”.
O Moscarol
Para recomeçar, nada como ficção. Eis o resultado do curso que fiz de narrativas infantis, com a escritora Christina Dias, lá no Centro Municipal de Cultura.
Abaixo, a narrativa (que não ficou exatamente infantil) sobre um personagem inventado a partir de objetos do cotidiano.
O moscarol
Das poucas coisas que lembrava da infância, uma delas era vontade imensa de voar, embora não tivesse asas. A outra, quase sutil, era uma eterna falta de aconchego, que lhe atravessava a alma, como um sibilo. Talvez pelo fato de sempre se reconhecer acompanhado por dois seres tão diferentes. Os dois lhe faziam companhia, chovesse ou sol fizesse… E eram tão diferentes aqueles dois amigos: enquanto um voava, o outro rastejava languidamente… e, embora díspares, formavam um par perfeito, diferentes, sempre juntos… e ele junto deles. Na verdade, eram um trio. E assim foi, por muito tempo, até que chegou o dia em que se deparou com a sua imagem, refletido em um pedaço de metal, caído no chão. E a imagem, côncava, mostrava-o meio disforme: quanto mais se aproximava, mas cresciam seu olhos, quanto mais se afastava, esguio era seu corpo, leitoso. Ficou ali parado. Ou melhor, se mexendo: nesse exercício de ir e vir, aos poucos foi tomando consciência de quem era. O fato de ter sempre vivido entre os dois, não o fizera nenhum deles. Em vez disso, enxergava-se um pouco num, um pouco no outro. Talvez o hábito fizesse o monge, quer dizer, talvez a convivência tenha lhe embebido a alma: mosca e caracol já lhe fizessem parte. E embora não exatamente voasse e nem muito menos rastejasse, se perguntava: e se o fora desde sempre?
Mil vezes Millôr – millores dias virão?
Reproduzo abaixo, texto que escrevi para a Zero, em 2008, sobre os 85 anos do Millôr. Reproduzo ainda um dos seus questionamentos: “E se a vida for do outro lado?” Um beijo, Millôr, mais um pensador que se vai, ficamos mais pobres em inteligência. Pelo menos fica sua obra, grande pensador anarcobrasileiro.
MILLÔR 8.5 (turbinado)
“Tenho quase certeza de que uma vez, no Meyer, em certa noite de tempestade, fui barbaramente assassinado. Mas isso foi há muito tempo.”
Hoje, Milton Viola Fernandes faz 85 anos, ou melhor, faria, não fosse o registro de nascimento ter sido atrasado em quase um ano. Registro, aliás, que, além disso, lhe reservou outras surpresas. De Milton a Millôr, um longo processo foi gestado, o que incluiu o anagrama Notlim e chegou ao mil vezes Millôr atual. Nascido no Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 1923 – e tendo como data oficial de nascimento o dia 27 de maio de 1924 -, o Guru do Meyer veio a assumir o nome Millôr já na adolescência, graças ao registro impreciso do escrivão na sua certidão de nascimento, que, ao grafar o traço do ‘t’ do nome Milton, deixou-o acima da letra ‘o’, o que foi acrescido de uma incompletude da letra “n”, sugerindo um ‘r’. Talvez isso explique a verdadeira obsessão pela reescritura do nome, uma constante na obra do humorista/jornalista, que pode ser resumida pelo livro Um Nome a Zelar (Desiderata, 2008).
A esse respeito, aliás, ele mesmo reconhece a anterioridade do traço gráfico à escrita em sua obra, sendo que, particularmente nesse caso, há uma fusão das duas coisas, já que a letra passa por um processo de elaboração plástica que sugere uma não-hierarquização entre grafia e ilustração, no fundo configurando a mesma coisa. Aliás, em alguns momentos de sua obra, aparece a proeminência do traço artístico, de que são exemplos a premiação na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires, juntamente com o romeno/norte-americano Saul Steinberg (em 1955); um cartaz da Anistia Internacional (em 1980); e as muitas e variadas ilustrações em que a paisagem é o Rio de Janeiro, com Ipanema ao fundo. Noutros, há a proeminência da escrita, também ela artística, que começou com um chamado – já aos 16 anos – para preencher o espaço de quatro páginas da revista A Cigarra (a convite de Frederico Chateaubriand), por motivo de cancelamento da publicidade, com a seção “Poste-Escrito”, sob o pseudônimo Vão Gôgo. O sucesso dessa empreitada fez com que se tornasse seção fixa e, mais tarde (em 1945), com o mesmo pseudônimo, estreasse em O Cruzeiro a seção O Pif-Paf, ilustrada por Péricles. Dezenove anos depois (em 1964), já consagrado em sua atuação multimídia, que incluía o jornalismo, a tradução, o roteiro cinematográfico, a ilustração, o texto dramático, a poesia, o humor, etc., lançou uma revista quinzenal com o mesmo nome (Pif-Paf), considerada o início da imprensa alternativa no Brasil.
Já em 1969, foi um dos fundadores do coletivo ícone ipanemense O Pasquim, que teve uma vida longa (e tumultuada) no seu papel preponderante de resistência à ditadura, em nome da liberdade de expressão. Tudo sempre pela via da inteligência, do humor e do sarcasmo, num carioquês de vários sotaques que repercutia por todo o Brasil naqueles tempos sombrios.
Outro aspecto relativo à sua infância parece também ter tido influência marcante na sua produção artística: com as perdas do pai, aos três anos, e da mãe, aos 12, em sua orfandade, cedo assumiu a posição filosófica da “paz da descrença”, o que lhe permitiu uma reflexão da realidade escorada no ceticismo. Essa precoce condição “sem pai nem mãe” acabou repercutindo em sua obra, através de um humor operado por um relativismo absoluto, centrado no dialogismo. A esse respeito, com a ajuda de Slavutzky e Kupermann (2005), podemos buscar em Freud, de Totem e Tabu, a explicação para tal característica.
Segundo Kupermann, se o humorista consegue identificar-se “(…) até certo ponto com o pai, é apenas na medida em que pode reconhecer sua orfandade, ou seja, a falência da pretensão de possuir qualquer garantia transcendente (idealizada) de onisciência e onipotência, atributos do pai da horda há muito ausente”(p.34). Ou, dito em outras palavras e transposto para o caso de Millôr, “(…) tudo pode me acontecer, a mim que já perdi o que tinha para perder e que aprendi a rir com a vida”(p.35).
Biografismos à parte, a epígrafe que encima este texto, criada para a abertura de A Bíblia do Caos (2002), seu livro de pensamentos e frases, é considerada por ele mesmo referência de humor. Mas que estranho tom é esse de quem é considerado um dos maiores humoristas brasileiros? Diferentemente do riso fácil, da chalaça, podemos constatar um certo distanciamento narrativo operado por Millôr, que consegue, através do humor e da ironia, testemunhar o seu tempo resguardado pela (auto) crítica mordaz. Para isso, em muito a realidade o ajudou: para entendermos o Brasil nesse longo (e inacabado) processo da ditadura à democracia – não só política, mas econômica -, encontramos, no conjunto de sua obra, uma desconstrução proposital do discurso sério, a instauração de um espaço carnavalesco no papel (segundo a concepção de Bakhtin) que é o espelho, nem sempre deformado, daquele captado na realidade. Assim, escudado pela crítica do riso, expõe a ambivalência não só da cultura brasileira, mas do próprio homem universal, através de uma análise de riso reduzido, onde não há a “absolutização de nenhum ponto de vista, de nenhum pólo da vida e da idéia”.
Além disso, nesse caso, radicalmente, o que é conteúdo é forma: mais do que nenhum escritor/cronista brasileiro de seu tempo, Millôr instaurou a primazia absoluta da fragmentação em seu discurso, compondo uma linguagem mosaica que pressupõe um leitor disposto a se embrenhar no caleidoscópio da sua narrativa, já que, nas amarras dessa escritura estilhaçada, não há indicação de fio a ser puxado para desfazer a verdadeira colcha de retalhos (patchwork) discursiva. Parece querer-nos dizer, também ele, diante da crise de ideologias que vivemos, “não me sigam, eu também estou perdido”.
Nesse processo, posterior a O Pasquim, que incluiu marcas como a polissêmica
“livre-pensar é só pensar”, o bordão “arte é intriga” e a ideologicamente palíndrômica “a mala nada na lama” (tanto faz ler da direita para a esquerda quanto da esquerda para a direita), Millôr marcou presença em grandes publicações, todas com repercussão nacional.
Atualmente, para acompanharmos a sua obra, podemos acessar a sua página na internet – www.millor.com.br – ou buscar as suas crônicas na revista Veja, onde – ironias das ironias – ocupa hoje um espaço similar ao inicialmente utilizado em seu início de percurso, perdido entre páginas de publicidade – nesse caso, aliás, acaba jogando com as mesmas armas de seus, digamos, pares – rompendo com a lógica editorial da publicação enquanto ideologia e assenhorando-se das múltiplas formas possíveis que a publicidade permite, instaurando uma verdadeira encampação do espaço midiático e, mais que tudo, impondo a sua voz extremamente pessoal e subjetiva diante de um veículo de comunicação que se diz objetivo e imparcial. Talvez alguns leitores tenham dificuldade em percebê-lo naquele espaço, imprensado entre as páginas amarelas e as múltiplas páginas de propaganda, mas Millôr faz o possível para fazer respeitar o seu nome, o de seus leitores e seus (poucos) cabelos brancos. Sabe que entre a graça e a desgraça há um limiar mínimo, que entre o trágico e o cômico, tudo pode ser uma questão de ponto de vista. Então, nesses casos, talvez o melhor caminho seja mesmo o do ceticismo, ou melhor, saber que às vezes o cômico pode ser uma defesa contra o trágico. No fundo, ele percebe que “o homem [em seus 15 minutos de fama] é um ator que gagueja na sua única fala, desaparece e nunca mais é ouvido”, na clássica frase de Shakespeare, em Machbeth. Conforme lida, podemos considerá-la trágica ou
cômica – eis o fundamento do espírito humano, seja o leitor cético ou ascético.
Apontado por muitos como um dos maiores pensadores brasileiros e um dos de maior inserção na vida nacional, Millôr Fernandes filia-se a uma tradição da literatura brasileira que despreza o oficial. Mais que isso, aproximando-o do “sargento de milícias” Leonardo, podemos considerá-lo “filho da corruptela e da derrisão”. E falando em filiação, com certeza, a duplicidade de datas de nascimento cobra o seu preço: qual delas comemorar? Seguindo o discurso e a prática infracionais, embora considere que “Aniversário é uma festa/ Pra te lembrar/ Do que resta”, certamente a horda ipanemense, representada pelo próprio Millôr, deve estar fazendo festa hoje. Festa pela passagem dos anos de um frasista que perde o amigo, mas não a ética, que sabe que a liberdade individual se sobrepõe a qualquer ideologia ou governo e que faz do humor “a quintessência da seriedade”, construindo com ele uma crítica visceral ao homem de nosso tempo.
Hoje, então, esse animal político faz 85 anos.
Dia internacional da mulher – um grande dia (crônica do Expresso Ilustrado)
Aproveito o 8 de março para divulgar minha crônica desta semana no jornal Expresso Ilustrado, de Santiago-RS. É o recomeço de minhas postagens, quando estarei publicando as crônicas do Expresso, uma antiga, outra da semana. É uma maneira de fazer o renascimento da Fênix, já que estou priorizando o término do meu doutorado, que, se eu quiser, estará fechado em maio deste ano. Será? Um abraço a todos. Feliz dia das mulheres!
Em mil lares, por mil ares, milhares de mulheres a mil
O 8 de março se aproxima. Data mais que necessária. Segundo alguns, lembrança de uma greve de operárias têxteis, que teriam morrido calcinadas, nos EUA, presas à fábrica pelos patrões. Segundo outros, a partir de uma greve vitoriosa na URSS, prenúncio da revolução de 17. Paradoxais as explicações, mas ambas envolvendo lutas. Embora hoje a mulher tenha maior reconhecimento social, são muitos os casos a dependerem de leis Maria da Apanha e Delegacias da Mulher, além de continuarem discriminadas em relação a salários e assoberbadas por duplas jornadas de trabalho. E não foi há muito tempo que a coisa era bem pior.
Lá pelos 80, matava-se por amor; hoje explicação não aceita. E a expressão cultural dessa mudança podemos perceber pela música. Enquanto Magal cantava ”Se te agarro com outro. Te mato. Te mando flores. E depois escapo”, hoje Teló canta “Ai se eu te pego… Assim você me mata”. Mudança radical, não? Fruto da revolução sexual, por certo, mas que não atingiu plenamente toda a população. Por isso, a data ainda é necessária. Por isso, neste 08 de março, a Casa do Poeta de Santiago, juntamente com o Centro Materno Infantil, está lançando o livro Infinitamente Mulher, resultado da prosa de várias mulheres da terra. É um marco de consolidação de um discurso: a voz feminina a tecer a colcha de retalhos de sua história, apenas ocupando o espaço que lhe é de direito (mas nem sempre de fato).
Obs.: Não poderei estar lá no evento, na Estação do Conhecimento, mas, por favor, guardem um exemplar para mim.
Namore um cara que lê…
Agora a versão masculina, feita pelo Bruno Palma e Silva no seu blog Acepipes escritos. Não é autopromoção, não, é da leitura mesmo. Não estou à procura de. Já estou enamorado o suficiente, da vida e da companheira… que me deu este fruto aí… precisa dizer mais, um cara com a cara nos livros…
Namore um cara que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos. Namore um cara que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras.
Encontre um cara que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê.
Ele é o cara que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar.
Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo –e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil.
Namore um cara que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e –talvez não admita– sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um cara que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances.
Um cara que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência.
Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um cara que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo.
E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um cara que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre.
Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você. Invariavelmente, ele vai voltar –com o coração aquecido– para o seu lado.
Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio.
Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouví-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado. Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um cara que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho.
Namore um cara que lê porque você merece. Merece um cara que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do “e eles viveram felizes para sempre”, namore um cara que lê.
Ou, melhor ainda, namore um cara que escreve.
Pescado de: http://acepipesescritos.blogspot.com
Namore uma garota que lê…
Originalmente, recebi um texto em versão masculina; fui ao hipertexto em busca da fonte e olha o que achei: a versão original, feminina. Vale a pena ler. Em seguida mando a outra versão. Muito legal! A ilustração roubei do facebook da minha amiga Lélia Almeida.
Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais.
Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.
Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.
Compre para ela outra xícara de café. Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.
É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.
Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.
Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.
Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto.
Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.
Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito.
Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.
Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.
---------------------------- Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico Tradução e adaptação – Gabriela Ventura
Crônica semanal no Expresso Ilustrado
Não preciso dizer que muito me honra prosear com os conterrâneos todas as semanas, desde 11/11/11, através das páginas do Expresso. Obrigado pelo convite ao Márcio e ao João Lemes. A partir desta semana, já estou integrado à versão eletrônica do jornal; quem tiver interesse pode acessar pelo endereço abaixo, onde consta o meu nome na listagem de colaboradores. A minha foto é que está meio nublaba, mas não tem problema, aos poucos vou acertando o foco. Em breve vou postar, uma por uma aqui, pra quem quiser acompanhar diretamente, pós-publicação, mas vale a pena ver o jornal da terrinha e seus diversos colaboradores… Sou apenas um dos que fazem do Expresso o melhor da Região. Quem ler, verá!
13a. Feira do Livro de Santiago – Sessão de autógrafos de Geração Pixel
G E R A Ç Ã O P I X E L
Temos um encontro marcado, dia 26, às 18h, na Praça Moisés Vianna – na Feira do Livro de Santiago. Te aproxega, vivente!
O livro está sendo comercializado no stand da Casa do Poeta ao preço de vinte reais.
Das delicadezas… Sessão de autógrafos de Nas entrelinhas
Olhem a delicadeza, como sempre. A batalhadora incansável, predestinada, amiga das letras e dos amigos está na praça com seu Nas entrelinhas. Pra quem conhece a Lígia, sabe que cada uma dessas linhas, que se fizeram em versos, foram construídas com amor, sentimento e muita paixão. As entrelinhas ficam a cargo do leitor: quer sorver, verá…




