Celeridade olímpica

jady boltNunca o termo “celeridade” foi tão perfeito. O neologismo, utilizado por mim para expressar os 15 segundos de fama das subcelebridades mundiais, cai como uma luva no caso da morena Jady Duarte. Depois de deitar na cama com o medalhado astro jamaicano Usain Bolt, criou fama instantânea. Num piscar de olhos, a carioca, agora nominada Jady Bolt, já mudou de bairro, arranjou empresário e é arroz de festa de baile funk. E isso que a menina diz estar morta de vergonha e nunca ter tido a intenção de ser famosa, considerando o caso negativo pra ela. Jocosidade à parte, que besteira pouca é bobagem, já vendeu uma entrevista ao tabloide inglês The Sun, tudo, é claro, em busca de um “bronze”. Só não pode queimar o filme do astro e dizer que ele é o the Flash também na horizontal.

E o caso teve repercussão internacional, já que a namorada oficial do atleta, a jamaicana Kasi J. Bennett, recebeu, via Instagram, uma corrente de solidariedade de muitas brasileiras, indignadas com a postura do atleta em tê-la traído com uma brasileira. Sobrou pra todo mundo, pra Bolt, pra Kasi, mas quem colhe os frutos é Jady. Depois dos vexames dos nadadores norte-americanos, do dirigente irlandês, quem diz que quem passa vergonha são os nativos?

Mas, pensando bem, depois do episódio Monica Lewinski, nada mais me espanta. A dama traída, que corre o risco de se tornar a presidenta dos EUA, já segurou uma onda bem maior, e continua juntinho do maridão e sendo apoiada por ele rumo ao poder-mor do planeta. Foi-se o tempo em que roupa suja se lavava em casa — lavar na lavanderia geral da mídia mundial dá muito mais Ibope. E o povo gosta de uma baixaria conjugal assim ventilada, o privado tornado público causa um frisson que vende jornais e enche as vidas vazias de muita gente. Enquanto isso, o Bolt usufrui, que não tem nada com isso — e se alguém se importar, que corra atrás dele, quero ver pegá-lo nos 100, 200 ou no 4X100 metros. Acelera, Bolt!

Obs.: Foto pescada da rede.

26. agosto 2016 by Breno Serafini
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Nuvem negra

NuvensNegras

“Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial” caetaneava-se, nos anos 90, ao refletir o eterno descompasso da sociedade brasileira em relação ao resto “civilizado” do mundo. A crítica, válida à época, talvez hoje pudesse ser saudada como ao contrário, a paz de estarmos em descompasso com o processo sociopolítico que assombra o mundo: xenofobia na Europa, Tramp (neologismo proposital) nos EUA e conservadorismo. Só que não.

Os dias sombrios parecem se confirmar também aqui: conforme segue o agosto, mês emblemático da política brasileira, aumenta o desgosto — nele se foram Arraes, Getúlio e outros… Aliás, sobre Vargas, autovitimado com uma bala no coração, a desculpa do mar de lama era a mesma de hoje. Repete-se o engodo enquanto farsa. Enquanto isso, passam por debaixo da ponte do governo uterino a protelação do julgamento de Cunha, o sepultamento da Operação Zelotes e acena-se com a destruição (o eufemismo utilizado é modernização) da CLT e a evangelização da política. Quer dizer, anistia fiscal para os poderosos de plantão e arrocho pros desvalidos de sempre. Tudo em nome da governabilidade. Aliás, o tema corrupção saiu do noticiário. Mas, isso, claro, há de se confirmar, realmente, só depois das eleições municipais, em outubro, o que muitos sabem, mas poucos se dispõem a fazer a hora acontecer.

Tudo isso pra dizer que, saindo do lançamento do novo livro do Rafael Guimaraens, pai da família Libretos e um dos fundadores do Coojornal, deparei-me com uma cena preocupante na Redenção. Explico melhor: saindo mais cedo do Ecarta, onde ocorria o lançamento do livro O sargento, o marechal e o faquir, que trata do famoso Caso das Mãos Amarradas, que vitimou o sargento Manoel Raymundo Soares, barbaramente torturado e jogado às margens do Guaíba, deparei-me com vários camburões chegando no outro lado da avenida João Pessoa.

O clima parecia propício, depois de ouvir um bate-papo entre o próprio autor e Suzana Lisbôa, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e ex-esposa de militante abduzido até hoje pela ditadura, sobre os horrores dos anos de chumbo. Pois ocorre que, ao lado do espaço cultural, é justamente a sede do PMDB. E como havia algumas manifestações ocorrendo na Capital, explicou-me o segurança do espaço, a Brigada foi chamada a reforçar a segurança da sede metropolitana do partido.

Tudo explicado, mas nada tranquilo e favorável, passei rapidamente com meu filho pela avenida, mas o frisson ficou: tempos de repressão, como se se destinasse ao evento político-literário a que havia prestigiado. Menos mal que tenha sido apenas isso. Mas agosto, sempre agosto, promete.

Aliás, oportuno também o lançamento do livro do cientista político e ex-reitor da UFRGS Hélgio Trindade A tentação fascista no Brasil (Editora da UFRGS, 838 p.), nesta mesma semana. Não podemos esquecer jamais. O Brasil, com sua jovem democracia em construção e já ruína, como diria Caetano, só confirma que temos muito que aprender enquanto sociedade. Não se retira do poder alguém ungido pelas urnas sem crime provado de responsabilidade impunemente — a resposta pode vir a galope! Nesse embate, se não chegamos ainda ao pior, ele pode estar mais próximo do que pensamos.

Enquanto isso, só resta resistir e não deixar de desejar e djavanear: “passa, nuvem negra,/ larga o dia/ e vê se leva o mal/ que me arrasou/ pra que não faça sofrer mais ninguém”.

22. agosto 2016 by Breno Serafini
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Carnaval – da série webpoemas

Carnavalwww.brasil.engov.br

15. fevereiro 2016 by Breno Serafini
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Muralha da China – da série webpoemas

Muralha da China

10. fevereiro 2016 by Breno Serafini
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Uber

Uber

24. novembro 2015 by Breno Serafini
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Webpoemas

Antihomofobia5

24. novembro 2015 by Breno Serafini
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Maldito/bendito menino – uma crônica dolorida

menino deitadoComo diriam os chineses, “uma imagem vale por mil palavras”. Então, o que dizer diante de uma cena por demais triste e tocante de ver um menino de poucos anos emborcado, sem vida, em uma praia do Mediterrâneo, como um peixe morto. Antes fosse peixe, o que, por si só já seria triste, mas ao menos nos eximiria da nossa culpa, anestesiados que estamos. Afinal, peixes são peixes, dão em cardumes, ora, bolas! Mas se tratava de uma vida humana, e, mais do que isso, de um infante, a quem não foi dado sequer o direito de escolha, a não ser seguir seus pais numa tragédia anunciada todos os dias em jornais e tevês pelo mundo todo.

E nós, do alto de nossas barrigudas poltronas assistimos impávidos ao sofrimento coletivo nas rebarbas de uma Europa de povos e mais povos em busca de uma réstia de sol, de um canto de paz, de alguma dignidade. Atiram-se ao mar como cardumes, implorando a chegada ao outro lado, numa travessia desesperada, sem recursos, no limite de qualquer dignidade. E, em vez de acolhida, quando conseguem finalizar a travessia, o que encontram são muros e mais muros de dificuldades — enxotados de um lado a outro como hordas indesejadas.

Alguns morrem por terra, em contâineres de caminhões, abandonados, o fluido apodrecido de seus corpos denunciando o mau cheiro coletivo de um limite há muito ultrapassado. Há pouco tempo atrás, foram esses europeus que fugiram da guerra, buscando guarida nas Américas; hoje são brancos, chicanos, negros, africanos; pobres, muçulmanos, palestinos a implorarem uma acolhida impossível.

E nós a nos aboletarmos na frente da televisão achando tudo isso normal. Nada é normal, miséria não é normal, fome não é normal, falta de esperança não é normal. Maldito menino emborcado! Melhor que tenha sido assim – pra que viver sem pai nem mãe e sem pátria. Sem chão que o acolhesse. Sem sonhos. Maldito soldado que o acolheu. Que seu pranto se tornasse água, que se tornasse comida de pássaro ou peixe, peixe que quis ser a atravessar o rio da existência. Tão longe e tão perto uma margem da outra. Mas ficou no caminho, vindo a dar no mar, na areia , a descortinar toda a nossa —  não a dele — miséria.

Bendito menino. Que tenha terminado sua trajetória em paz. Maldito cidadão mundano que acha tudo isso normal! Isso é que é anormal!

03. setembro 2015 by Breno Serafini
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Poemas nos ônibus e nos trens 2015

 

Divorcio5

05. agosto 2015 by Breno Serafini
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Penduricalhos nas quatro linhas

juiz de futebolNesses tempos em que a CBF, no Brasileirão, com justiça, exige respeito aos árbitros, melhor faria se os fizessem respeitar também pelo salário que ganham. Todos concordam: o homem que julga tem que ser idôneo, independente, não suscetível à corrupção, etc. Por isso, muito me espanta que, num espetáculo multimilionário e apaixonante como o do futebol, tais protagonistas recebam proventos insignificantes, principalmente se fizermos um paralelo com os outros juízes, do Judiciário, que, mesmo já tendo alcançado o respeito social e, por consequência, salarial, cada vez mais se atribuem penduricalhos, turbinando o seu salário.

Foi isso que me veio à mente ao juntar duas reportagens de jornal, de ZH, de algum tempo atrás. A primeira, de Diogo Olivier, trata da vida atribulada dos árbitros do Gauchão, que, para sobreviverem, se dividem entre a paixão de arbitrar o jogo da pelota e a vida real, em que têm que se desdobrar em múltiplas tarefas, viajando muitas vezes madrugada a dentro, em jornadas extremamente cansativas e perigosas, para assumir o batente em outra função, fora das quatro linhas. Só para ilustrar com dados da reportagem, os árbitros gaúchos recebem R$ 1,2 mil (jogos em geral), R$ 1,8 mil (jogos com dupla Gre-Nal), os aspirantes FIFA recebendo um adicional de 25%.

A segunda reportagem, de Guilherme Mazui, trata justamente dos vários penduricalhos dos juízes do Judiciário, verdadeira upgrade escancarada dos salários: auxílio-transporte (5% do salário), difícil provimento (1/3 do salário do magistrado), auxílio-creche (5% por filho, até os seis anos de idade), auxílio-moradia (20%), auxílio-alimentação (5%, inclusive em férias), auxílio-funeral (aos aposentados), auxílio plano de saúde (10% titular e companheira mais 5% por dependente), indenização de permanência (5 a 25%), auxílio-educação (5% por dependente, dos 6 aos 24 anos, desde que estudantes), passaporte diplomático e prioridades (livre trânsito em portos, aeroportos e rodoviárias), auxílio-capacitação (10% por titulação), prêmio por produtividade (dois salários extras por ano), auxílio-mudança (de um a três salários) e adicional de formação profissional (5 a 20%).

Fazendo um paralelo entre os pares (ou que deveriam ser, pelo menos), e tomando como referência o Brasileirão do ano passado, em que, segundo o Portal R7, o árbitro Sandro Meira Ricci teria recebido um salário de R$ 12 mil (por quatro jogos, em setembro), dediquei-me ao exercício matemático de acrescer aos primos pobres os mesmos privilégios que engordam os proventos dos primos ricos. Segundo meus cálculos, apesar de algumas diferenças de atribuições — e sem contar com nenhuma proteção de direito de imagem à digníssima progenitora de cada um deles —, chega-se à média de R$ 31,2 mil.

Então, para se fazer justiça a um país em que o futebol ocupa o cotidiano mais íntimo de cada um, permita-se que os juízes de futebol, pela importância que têm no resultado do espetáculo, tenham salários dignos. O que pode parecer um exagero, cerca de 30 mil mensais, diante de uma população tão pauperizada, em relação ao mundo do futebol de altíssimas cifras é quase nada, principalmente se levarmos em conta a importância atribuída (da boca para fora) a eles, além, é claro, da carreira curta (até os 40 anos).

Num país em que um juiz de tribunal inicia a carreira com um salário equivalente ao de um professor federal, doutor, prestes a se aposentar, nada mal que, pelo menos em campo, os juízes da bola ganhassem cerca de 10% do salário dos treinadores, indevidamente chamados de professores por seus pupilos — e isso sem falar nos altíssimos ganhos das estrelas maiores, os jogadores de futebol.

Então, mesmo que isso não resolva, de imediato, a maioria dos problemas do futebol, até porque, se sabe, a grande maracutaia não acontece exatamente ali, aos olhos do público e do multitelevisionamento, pelo menos teríamos a certeza de uma aposta em um profissionalismo cada vez maior — os juízes e bandeirinhas merecem. Penduricalho lá, penduricalho cá: isonomia já!*

*A título de ilustração, o cálculo, partindo dos 12 mil reais, salvo algum engano, foi o seguinte: 12 mil + R$ 600 (transp.) + 4 mil (prov.) + 1,2 mil (creche/dois filhos) + 2,4 mil (moradia) + R$ 600 (alim.) + 2,4 mil/1,2 mil (saúde) + 1,8 mil (média de 15% – permanência) + R$ 1,2 mil (educ) + R$ 1,2 mil (permanência) + R$ 200 (produtividade) + R$ 1,8 mil (mudança) + R$ 1,8 mil (formação) = 31,2 mil

01. julho 2015 by Breno Serafini
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On no Off

kite surf na neve

Inversamente proporcional à minha cada vez menor vontade de ver televisão, cada vez mais admiro alguns (poucos) canais que trazem coisas interessantes. Se, antes, os que me chamavam atenção eram os noticiosos, dos quais me livrei, sem nenhuma síndrome de abstinência, hoje em dia os meus preferidos, por motivos óbvios, são o Arte 1, o Canal Curta e, pasmem, o Off. Este último, longe de ser de minha preferência imediata, posto que, de esportista radical, o máximo que fiz foi pular em voo livre duplo em São Conrado, priscas eras, acabou se imiscuindo nos meus interesses mais imediatos pela abundância de paisagens espetaculares e selvagens, sem abrir mão da presença humana, no seu limite.

Talvez pelo fato de ligar a TV por ele, aprendi a apreciar suas imagens, suas reportagens e entrevistas, que encantam principalmente pelos locais inóspitos, os mais radicais destinos em que o homem se propõe a desafios esportivos de gelar a espinha, seja no surf, no skidiving, no montanhismo, no bungee jumping, etc.

E uma das mais curiosas reportagens a que assisti foi a de uma dupla que atravessa longitudinalmente a Groenlândia, batendo o recorde de distância em 24 horas ininterruptas de kite surf na neve. O esporte, uma mistura de vela e esqui, envolve uma série de emoções, a depender da velocidade do vento, da temperatura e da resistência dos aficionados. No caso, boa parte da paisagem era emoldurada pelo sol da meia-noite, o que dava uma luminosidade toda particular às cenas, em ambiente claramente adverso.

Mas o que me chamou atenção mesmo foi quando os esportistas fizeram uma pausa numa das antigas bases de monitoramento de fenômenos climáticos, abandonadas pelo homem, por obsoletas, em troca do controle por satélite. O que encontraram por lá diz muito sobre o ser humano, já que, como se deixado às pressas — o que não deve ter sido exatamente o caso —, foi um amontoado de lixo, tocos de cigarros e marcas humanas beirando a imundície.

Custa a crer, mas é verdade: senhor do mundo, o homem se acha no direito de fazer e acontecer, não importa como, nem onde. Deixa sua marca fétida, na entrada ou na saída — sem nenhum constrangimento —, em paraísos terrestres que mais se parecem com o céu. E não se diga que sejam atos de incivilizados, no caso, o crème de la crème da espécie: cientistas altamente especializados, técnicos e pesquisadores do Primeiro Mundo.

Como se vê, TV também é cultura. Paradoxo dos paradoxos, por isso também clico on no Off.

25. junho 2015 by Breno Serafini
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